Tomie Ohtake (1913–2015) foi uma das artistas mais importantes da história da arte brasileira. Nascida no Japão e radicada no Brasil desde 1936, construiu uma obra abstrata marcada pela cor, pelo gesto curvo e pelo silêncio como linguagem.
Sua relevância está na consolidação de uma abstração sensível, que une rigor formal e espiritualidade. Tomie demonstrou que a arte abstrata pode ser acolhedora, humana e profundamente conectada ao tempo interior.
No Brasil, sua importância é estrutural. Tomie ajudou a consolidar a abstração como linguagem sensível e acessível, ampliando sua presença tanto no circuito institucional quanto no espaço urbano (em especial na cidade de São Paulo), por meio de esculturas monumentais integradas à paisagem das cidades. Sua atuação também se estende ao campo cultural, com a criação do Instituto Tomie Ohtake, referência nacional em arte, arquitetura e pensamento contemporâneo.
Internacionalmente, sua obra dialoga com a abstração lírica e com princípios da estética oriental, como o vazio, o ritmo e a economia do gesto. Tomie demonstrou que a abstração pode ser universal sem perder identidade cultural, e profunda sem se tornar hermética.
Há, ainda, um aspecto essencial de sua trajetória: o feminino. Em um meio historicamente dominado por homens, Tomie afirmou-se sem confrontos discursivos. Seu feminino manifesta-se na permanência, na disciplina, na maturidade e na escuta. Não é um feminino performático, mas estruturante. Não busca impacto imediato, mas constrói autoridade ao longo do tempo.
Sua obra permanece atual porque nos lembra que a arte não precisa gritar para ser profunda.
“Tomie Ohtake transformou o feminino em estrutura: não como discurso, mas como tempo que sustenta, organiza e permanece.”
“A arte acompanha a vida — e a vida muda o tempo todo”.
Em tempos de excesso, Tomie Ohtake permanece como uma lição de equilíbrio. Sua arte ensina que o gesto mais forte pode ser aquele que sabe esperar, e que o silêncio, quando bem construído, é uma das formas mais altas de expressão.
@elianeschuchmann
Por Eliane Schuchmann – Colunista Seven Nine




