Tarsila nasceu entre cafezais (1886-1973), onde a terra vermelha tingia os pés e o horizonte era vasto. Na Fazenda São Bernardo, em Capivari, aprendeu desde cedo que paisagem não é apenas cenário — é destino. Mais tarde, em Paris, aprendeu as regras da pintura moderna. Mas foi ao voltar que encontrou sua verdadeira escola: o Brasil.
Tarsila não quis retratar o país como fotografia. Preferiu reinventá-lo. Deu ao verde das matas uma intensidade impossível, ao azul do céu uma eternidade inventada, aos corpos uma monumentalidade mítica. Pintou um Brasil que não existia — e, por isso mesmo, passou a existir.
Quando criou o Abaporu, não ofereceu apenas uma obra, mas um pensamento: devorar o mundo para devolver algo próprio. A antropofagia modernista nasceu de seu gesto silencioso e preciso — como quem semeia uma ideia que germina no tempo.
Sua pintura uniu o popular e o erudito, a memória rural e a vanguarda europeia, o sonho e a estrutura. Tarsila descobriu que identidade não é herança pronta — é construção paciente.
E havia nela um feminino fundador. Em um tempo em que mulheres eram paisagem, ela tornou-se arquiteta do imaginário. Não pediu licença. Criou linguagem. Ocupou o centro. Fez do próprio olhar uma nação simbólica.
Hoje, sua obra permanece como espelho profundo: quem olha Tarsila, vê o Brasil.
“A arte não tem fronteiras quando nasce da alma.”
Tarsila criou o tempo seguinte.
@elianeschuchmann
Por Eliane Schuchmann – Colunista Seven Nine




