Na arte, como na vida, os símbolos não nascem prontos. Eles se constroem no tempo, atravessam culturas e se fixam quando passam a representar algo maior do que sua forma original. O Peru de Natal é um desses casos emblemáticos.
Mais do que um prato tradicional, o peru tornou-se um símbolo cultural de celebração, partilha e fraternidade. Sua consolidação como centro da ceia natalina não se deve apenas a fatores históricos ou econômicos, mas à força da narrativa artística — em especial, à literatura.
Foi com Charles Dickens, em Um Conto de Natal (1843), que o peru deixou de ser apenas alimento para se tornar gesto ético. Ao colocar o prato no coração da história de redenção de Ebenezer Scrooge, Dickens redefiniu o Natal como um tempo de responsabilidade coletiva. Servir, naquele contexto, passou a significar cuidar. Comer, a compartilhar. Celebrar, a incluir.
A arte tem esse poder: transformar o cotidiano em linguagem simbólica. Uma mesa posta pode carregar uma visão de mundo. Uma ceia pode revelar valores. No Natal proposto por Dickens, não há espiritualidade dissociada da ação concreta. A fraternidade não é discurso; é prato servido, casa aberta, dignidade preservada.
Esta coluna parte desse olhar: o de que a cultura se manifesta nos gestos mais simples — e mais profundos. Ao revisitarmos a origem simbólica do Peru de Natal, revisitamos também uma pergunta essencial: o que estamos servindo quando nos sentamos à mesa?
Que a arte continue nos lembrando que tradição não é repetição vazia, mas sentido renovado. E que, neste Natal, a ceia seja mais do que abundância: seja presença, compaixão e humanidade compartilhada.
Assim Dickens nos lembrou: “Porque servir, no fim, é uma das mais belas formas de amar.”, e, “A verdadeira riqueza é a capacidade de partilhar”.
@elaineschuchmann
Por Elaine Schuchmann – Colunista Seven Nine




