Chiquinha Gonzaga: quando o piano abriu alas

Em 17 de outubro de 1847, no Rio de Janeiro, nascia Francisca Edwiges Neves Gonzaga. O Brasil ainda era Império. A escravidão estruturava a economia. Mulheres eram educadas para o casamento, não para o palco.

Mas aquela menina,  que o tempo consagraria como Chiquinha Gonzaga , não caberia no script social que lhe foi destinado.

 Cresceu entre contrastes: disciplina e marginalidade, piano europeu e batuque popular. Recebeu formação musical refinada. Casou-se cedo, como mandava a tradição. Separou-se cedo, como não se admitia.

Ao deixar o marido, perdeu status. Perdeu conforto. Perdeu aceitação social.
Mas ganhou voz.  E escolheu viver dela.

No século XIX, sustentar-se como musicista era ousadia. Como mulher, quase insubordinação. Chiquinha tocava em lojas de instrumentos, dava aulas, compunha polcas e valsas que rapidamente ganhavam as ruas.

Em 1877, lançou “Atraente”, um dos primeiros choros estruturados. A partir dali, ajudou a consolidar o choro como gênero urbano brasileiro, sofisticado, técnico, mas visceralmente popular. Deixou um  legado importante, abertura de espaço para mulheres na música, foi fundadora da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais do Brasil (SBAT). Compôs para teatro de revista e operetas, consolidando uma linguagem nacional.

Foi a primeira maestrina do Brasil e rompeu barreiras ao atuar profissionalmente como compositora regente, algo raríssimo para mulheres do século XIX.

Frequentava rodas musicais predominantemente masculinas, convivendo com nomes como Joaquim Callado e Ernesto Nazareth. Não como exceção decorativa, mas como igual.

Em 1899, compôs “Ó Abre Alas”. Não era apenas uma marchinha. Era o prenúncio de uma cultura carnavalesca que se tornaria patrimônio simbólico do país.

Chiquinha mencionou: “Há mulheres que não escrevem música, escrevem futuros”.

Ela literalmente abriu alas.

@elianeschuchmann

Por Eliane Schuchmann – Colunista Seven Nine

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