Há escritoras que narram o mundo.
Cecília Meireles o escutava.
Sua poesia não nasce do acontecimento, mas do silêncio que o antecede. Não é grito, é sopro. Não é excesso, é essência. Ler Cecília é como abrir uma janela em um quarto fechado há anos: o ar entra devagar, mas muda tudo.
Nasceu no Rio, em 1901, órfã ainda criança, aprendeu cedo que a vida é feita de partidas. Talvez por isso sua obra nunca tenha se agarrado às coisas — ela sempre escreveu com leveza, como quem sabe que tudo passa. Sua matéria-prima não era a posse, mas o instante.
Enquanto o Modernismo brasileiro buscava ruptura e barulho, ela escolheu outro caminho: o da depuração. Sua linguagem é clara como água profunda — simples à superfície, infinita por dentro.
Sua obra fala de infância, memória, morte, espiritualidade, solidão, eternidade — mas nada pesa. Há sempre uma delicadeza que sustenta o abismo.
Seus poemas nos ensinam uma ética do desapego. Amar sem possuir. Viver sem endurecer. Aceitar a impermanência como beleza.
Talvez por isso sua voz seja tão necessária agora.
Em tempos de excesso de informação, ruído e urgência, Cecília nos devolve o essencial: pausa. Interioridade. Respiração. Sua poesia funciona como um antídoto contra a pressa contemporânea. Ela nos recorda que existir é mais do que reagir, é contemplar.
Seu legado para a literatura brasileira é imenso. Consolidou uma lírica de alta musicalidade, elevou a poesia a dimensão filosófica e espiritual, e mostrou que a suavidade pode ser uma forma de força. Influenciou gerações não pelo impacto, mas pela permanência.
Que o silêncio também constrói. Que a leveza pode carregar o mundo.
Hoje, sua obra continua viva porque fala de algo que nunca envelhece: a condição humana diante do tempo.
Ler Cecília é lembrar que somos passagem e, ainda assim, inteiros. “Aprendi com as primaveras a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.”
@elianeschuchmann
Por Eliane Schuchmann – Colunista Seven Nine




